[memórias colhidas em recife 2]

joão cabral de melo neto
diz que não se vê no canavial planta com nome

de que serve mesmo o nome
se ele não é pele e sim traje roto?

eu que sempre habitei a terra inominada
vivo o indizível
[dívida social]

eu me
indivíduo
[sóis sois]

o sol é o centro do universo
o sol está no centro da terra
a terra do centro é líquida
o vulcão cospe o centro
toda a superfície é queimada pelo centro
o centro torna-se a pele da terra
o sol de dentro o sol de fora
meu amor por você
e você
[meia noite depois]

Safo, onde estás?
Com a Lua e as Plêiades mergulhadas,
acreditas estar sozinha.

É escuro. Eu te procuro.
Guarda sua promessa,
pois a realidade é ambígua.

Dentes também,
quo alimento é pútrido.

De que serve a intriga,
quando tudo, por si só,
gasta-se?
uma rua vazia
é muito mais vazia
quando se está só
algumas ruas são tão tímidas
que encolhem os ombros
quando a gente passa
vivo na fração de segundo
em que se vê uma foto inédita

morto de imediato
pelo olhar que inaugura a imagem
Não sejamos impertinentes. Abraçar nuvens é que é difícil.
Lentamente, somos modificados pelo vento.
Brisas desaceleram cotidianidades.

Não temos respostas. Não temos escolas.
Só aprendemos quando não mais precisamos.
[sutra para os desiludidos]

Eu sei sentir a dor.
Tenho o mapa dos nervos.
E meu gárgula corre a lágrima para o algeroz.
nuvem
sai

nu vem
sol